
A moda circular é um sistema em que nossas roupas e objetos pessoais são produzidos segundo um modelo mais criterioso, no qual a produção de uma peça e o fim de sua vida útil têm a mesma importância. Esse sistema é regenerativo. As peças circulam enquanto mantêm seu valor máximo e, quando deixam de ter uso, voltam com segurança à biosfera.
A moda circular nasce do encontro entre a moda sustentável e ética e a ‘economia circular’, um modelo que troca o ciclo estabelecido de produzir, usar e descartar pela reutilização, reciclagem e upcycling no maior grau possível.
Em um modelo circular, os produtos são projetados e desenvolvidos pensando no próximo uso. Cada peça é concebida com foco em eficiência de recursos, ausência de toxicidade, biodegradabilidade e reciclabilidade, e é obtida e produzida com prioridade para fontes recicláveis e práticas éticas.
O termo moda circular foi usado pela primeira vez em 2014, em um seminário na Suécia, um ano depois de o desastre do Rana Plaza, em Bangladesh, expor os abusos do fast fashion. Em 2013, o Rana Plaza, um complexo de fabricação de roupas, desabou e matou mais de mil trabalhadores do setor, em sua maioria mulheres. Essa tragédia, somada ao esforço de ONGs e ativistas para dar visibilidade a alguns dos impactos devastadores sobre o meio ambiente, as pessoas e os animais, evidenciou o papel dos consumidores na exigência de padrões melhores e na defesa da mudança.
À medida que a moda circular se desenvolveu nos últimos anos, um elemento crítico desse modelo é a profunda mudança de mentalidade que ele representa. Se os consumidores aderirem a esse modelo comprando menos peças e de melhor qualidade, mantendo-as por mais tempo, consertando quando possível e escolhendo com mais cuidado, a circularidade não poderá coexistir com os calendários da moda a que nos acostumamos.
A indústria da moda se baseia em fabricar desejo, criando vontade onde não há necessidade e levando os clientes a aderir a novas tendências a cada estação. A moda enfrenta uma incoerência intrínseca: o modelo estabelecido, baseado no crescimento, é em última instância contrário à ideia de circularidade. O greenwashing é abundante. Ser menos insustentável não significa ser sustentável.
Adotar a economia circular: ações valem mais que palavras
Poucas indústrias elogiam tanto os próprios esforços de sustentabilidade quanto a da moda. Grandes ou pequenas, as empresas se apresentam como sustentáveis, éticas ou ecológicas, e apresentam seus produtos, de tênis a vestidos de noiva, como orgânicos, conscientes ou neutros em carbono. Mas, por mais conscientes que se digam, a realidade é que a produção de roupas e calçados mais que dobrou no último quarto de século, e três quartos dessas peças acabam queimadas ou enterradas em aterros.
A indústria da moda gera um desperdício enorme. Os estoques inevitavelmente se acumulam. Prazos de produção mais curtos, mais lançamentos de coleções e giro mais rápido fazem com que 40% dos produtos de moda sejam vendidos com desconto.
Além disso, a maioria das peças novas é feita de sintéticos baratos, não biodegradáveis e derivados de petróleo, como o poliéster.
Caso isso ainda não seja prova suficiente de quão longe a indústria está de algo próximo da sustentabilidade, aqui estão mais algumas estatísticas desoladoras:
- Menos de 1% das roupas é reciclado em roupas novas
- A indústria global da moda emite mais gases de efeito estufa por ano do que França, Alemanha e Reino Unido juntos
- Oitenta e sete por cento dos tecidos usados para fazer roupas acabam incinerados ou em aterros
A sustentabilidade é um conceito multidimensional, com um grande número de temas que abrangem todos os aspectos da cadeia de suprimentos e as pessoas envolvidas em qualquer ponto dela.

Insights extraídos do Atium
Liderando a mudança: principais atores e facilitadores
Há sinais positivos de que a indústria da moda pode abandonar o modelo de extrair, produzir e descartar. Marcas de roupas independentes ou ecológicas não são as únicas a adotar a economia da moda circular. Tanto marcas conhecidas do grande público quanto estilistas emergentes estão mostrando o caminho e provando que um novo modelo de negócios é possível e lucrativo.
Cada marca e cada estilista trazem ideias, opiniões e objetivos diferentes, mas todos estão unidos em torno do objetivo final da circularidade.

Mapa gerado pelo Atium
Em maio de 2017, a Fundação Ellen MacArthur lançou a iniciativa Make Fashion Circular. O principal objetivo da iniciativa é promover a colaboração entre os líderes da indústria têxtil, marcas, inovadores e stakeholders para avançar rumo a uma economia da moda circular.
No fim de 2021, a Fundação Ellen MacArthur apresentou um novo livro com insights práticos de mais de 88 colaboradores, de conglomerados de luxo a marcas independentes. Todos esses estilistas e empresas pioneiros compartilham sua abordagem para projetar para uma economia circular.
Alguns nomes conhecidos, como Stella McCartney, Gabriela Hearst e Eileen Fisher, estão mostrando o caminho ao criar pensando na circularidade. Não são os únicos. Estilistas emergentes como Bethany Williams e Duran Lantink e gigantes do luxo como a Gucci, sua controladora Kering, e a Burberry também estão dando passos rumo a essa mudança sistêmica.
Marcas e estilistas não podem fazer essa jornada sozinhos. A colaboração é fundamental. O trabalho de fornecedores confiáveis de matéria-prima, como a Polylana, de fornecedores de fibras recicladas, como a Cyclo, sediada em Bangladesh, ou de iniciativas de agricultura regenerativa, como Fibershed e FarFarm, é essencial para o sucesso de uma cadeia de suprimentos da moda transparente e circular.
Os inovadores estão fazendo avanços animadores na “indústria de materiais de nova geração”, que hoje fermenta e cultiva substitutos de base biológica para materiais convencionais de origem animal e sintéticos derivados de combustíveis fósseis

Mapa gerado pelo Atium
Há mais motivos para otimismo. Scaling Circularity, um novo relatório publicado pela Global Fashion Agenda em parceria com a McKinsey & Co., conclui que a indústria da moda poderia se tornar 80% circular até 2030 se houver mais investimento nas tecnologias e infraestruturas de reciclagem já existentes.
A pesquisa se concentra na reciclagem têxtil e conclui que as principais tecnologias de reciclagem trazem resultados ambientais melhores em emissões de gases de efeito estufa, esgotamento de água e uso da terra. Além disso, se ganharem escala, todas as tecnologias têm potencial para ser mais econômicas do que o uso dos materiais virgens correspondentes.
Federica Marchionni, CEO da Global Fashion Agenda, afirmou: “Esta pesquisa prova que as tecnologias de reciclagem necessárias existem, trazem enormes melhorias no impacto ambiental e que a economia funciona em escala. Estou otimista de que podemos criar um sistema circular lucrativo e acelerar a jornada da moda rumo às emissões líquidas zero.”
A circularidade é o caminho a seguir
A moda circular trouxe uma onda de maior conhecimento por parte dos consumidores, uma mobilização forte e o reconhecimento geral de que as abordagens lineares anteriores da indústria da moda não podem continuar. Essa demanda por transparência, durabilidade e um novo marco deve continuar por muito tempo e representa um futuro para a moda com menos impacto e mais harmonia com todos os recursos, processos e pessoas envolvidos.
Reconhecer os limites do crescimento infinito em um planeta de recursos finitos é um impulso poderoso para desenvolver novos modelos de negócios para a moda. As empresas devem começar a ir além do foco anterior em transparência, rumo a um compromisso e uma mudança reais.
