Quem vai defender a narrativa necessária sobre o metano na COP26?

O metano foi o tema de emissões que a COP26 continuou deixando de lado. Acompanhamos quem defendia a ação e por que esse argumento importava para chegar a emissões líquidas zero.

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Quem vai defender a narrativa necessária sobre o metano na COP26?

Em outubro, a TSC.ai vai publicar uma série semanal de insights sobre temas emergentes no cenário da COP26 e em seus 4 objetivos de combate à mudança do clima: mitigação, adaptação, colaboração e financiamento. Com base nos insights gerados pelo Atium, a tecnologia de sensoriamento global da TSC, vamos destacar histórias que ainda costumam passar despercebidas, mas que oferecem orientações valiosas para alcançar os objetivos que esta conferência histórica pretende estabelecer.

A COP26 não está vendo o quadro completo das emissões

A principal missão da COP26 é criar uma estrutura que garanta emissões líquidas zero no mundo até meados do século1. Uma parte significativa desse esforço parece estar concentrada na redução das emissões de carbono. Em dezembro de 2019, a COP 25 não conseguiu fechar um acordo sobre as novas regras do novo mercado global de carbono. A 3 semanas do evento, todas as atenções estão voltadas para a COP26. As expectativas são altas, pois todas as nações participantes concordaram em apresentar, até a COP26 em Glasgow, planos para reduzir suas emissões nacionais de dióxido de carbono2. Para dar o exemplo certo na COP deste ano, o primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, anunciou recentemente um aporte adicional de meio bilhão de libras para o fundo de financiamento climático de 100 bilhões de dólares que a COP26 pretende garantir3.

O forte foco na redução das emissões de carbono é promissor. Mas não podemos esquecer que, para chegar a emissões líquidas zero até 2050, precisamos tratar de muitos outros gases de efeito estufa potentes, como o metano, o óxido nitroso e os gases fluorados industriais, entre eles os hidrofluorocarbonos (HFCs). Embora o metano seja o segundo gás de efeito estufa mais abundante da Terra, depois do dióxido de carbono (CO2), a percepção pública parece quase sempre voltada apenas para este último. Apesar de ter vida relativamente curta, o metano é 28 vezes mais potente que o dióxido de carbono no aquecimento da Terra em um período de 100 anos. Em 20 anos, essa comparação sobe para cerca de 86 vezes4. Um relatório da ONU concluiu que, mesmo que todos os países cumprissem seus compromissos climáticos atuais (muito centrados no carbono), o mundo ainda chegaria a 2,7 graus Celsius de aquecimento adicional até 2100. Isso fica bem acima da meta atual de 1,5 grau do Acordo de Paris. O dado reforça a importância de uma política agressiva de redução do metano em cada país para enfrentar a crise climática. O relatório do IPCC publicado recentemente colocou a redução do metano como prioridade no combate à mudança do clima. Segundo o relatório, são necessárias políticas robustas para reduzir as emissões de metano nas próximas duas décadas, além da redução do CO2, para manter ao alcance o limite de 1,5 °C de aquecimento. O presidente da COP26, Alok Sharma, já havia mencionado que o metano deveria ser um tema de discussão na próxima conferência de Glasgow. Enquanto isso, Boris Johnson está determinado a aproveitar a onda de atenção pública e concentra suas prioridades em “carvão, carros, dinheiro e árvores”. Há muitos sinais de que o metano não será tratado como prioridade máxima pelo Reino Unido nem pela COP265. Ainda assim, nem toda esperança parece perdida.

carbono x metano

Europa e Estados Unidos: um esforço conjunto para dar ao metano um papel na COP26

Antes de apontar um possível caminho para o metano na COP26, precisamos voltar à origem desse potente gás de efeito estufa. Muitos estudos mostram que a agricultura é, de longe, o setor que mais emite metano (quase 60%). Em seguida vêm as ‘emissões fugitivas de metano’ das indústrias pesadas, incluindo a exploração e o transporte de petróleo e gás. O terceiro maior emissor são os resíduos em aterros sanitários6. A maior parte vem da pecuária, pelo processo conhecido como ‘fermentação entérica’. A quantidade de metano emitida pela ‘fermentação entérica’ depende principalmente do número de animais, do tipo de sistema digestivo e do tipo e da quantidade de alimento consumido. O Reino Unido e a Presidência da COP26 podem não ter colocado o metano como item prioritário na agenda das negociações de Glasgow. Isso não significa que nenhum outro governo esteja assumindo a missão de reduzir as emissões de metano. Em 2020, a UE adotou uma estratégia para reduzir as emissões de metano em todos os setores-chave, incluindo energia, agricultura e gestão de resíduos. Este ano, a Comissão Europeia planeja propor legislação para medir, reportar e verificar as emissões de metano, limitar a ventilação e a queima em tocha e impor requisitos para detectar e reparar vazamentos7. Do outro lado do Atlântico, o governo Biden priorizou reverter o total descaso do presidente Trump com as políticas climáticas. Hoje o metano é um item-chave na agenda de várias agências federais:

  • A Agência de Proteção Ambiental (EPA) está impondo, por determinação do presidente, padrões de poluição mais rígidos para aterros sanitários e promovendo novas regulamentações para conter as emissões de metano da indústria de petróleo e gás.
  • A Administração de Segurança de Dutos e Materiais Perigosos, do Departamento de Transportes, está tomando novas medidas para reduzir os vazamentos de metano em dutos e instalações relacionadas.
  • O Departamento de Agricultura dos EUA está trabalhando com agricultores e pecuaristas norte-americanos para ampliar a adoção voluntária de práticas agrícolas climaticamente inteligentes e reduzir as emissões de metano das principais fontes agrícolas8.

Os Estados Unidos e a União Europeia serão fundamentais para colocar o tema das emissões de metano na agenda global, não só em Glasgow, mas também muito além da COP26. Em 18 de setembro de 2021, os Estados Unidos e a União Europeia anunciaram o Compromisso Global de Metano, uma iniciativa para reduzir coletivamente as emissões globais de metano em 30%. A expectativa é que lancem um acordo formal em Glasgow, em novembro. O presidente Biden e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, pediram aos países que aderissem ao Compromisso e saudaram aqueles que já declararam apoio a uma redução mais forte do metano. Além dos EUA e da UE, outros 32 países já aderiram à iniciativa até agora. Segundo o World Resources Institute, sete desses países estão na lista dos 15 maiores emissores de metano do mundo e, juntos, respondem por mais de um quinto das emissões globais de metano9.

Compromisso Global de Metano

Parece haver impulso, mas também há críticas. Drew Shindell, professor de Ciência do Clima na Universidade Duke e presidente da Avaliação Global do Metano da Coalizão Clima e Ar Limpo, por exemplo, concluiu que o compromisso de reduzir coletivamente o metano em 30% parece intencionalmente ambíguo, pois não há metas por setor nem por país. Segundo o World Resources Institute, os modelos atuais indicam que as emissões de metano precisam cair de 35% a 37% até 2030 para que a meta de reduzir em 55% as emissões totais de GEE seja alcançada.

Chegar a emissões líquidas zero: as soluções do setor privado que estão dando certo

Como em qualquer frente do combate à mudança do clima, as políticas públicas sozinhas não bastarão. Na redução das emissões de carbono, muitas soluções bem-sucedidas já estão em pleno andamento, da captura de carbono ao sequestro de carbono no solo, entre muitas outras. Já na redução das emissões de metano, não parecemos tão engenhosos. Felizmente, há organizações inovadoras que também estão desenvolvendo soluções pioneiras nessa área. Para citar apenas algumas:

  1. Royal DSM: a empresa holandesa de base científica, que atua em nutrição, saúde e vida sustentável, desenvolveu o Bovaer®, um aditivo alimentar para vacas e outros ruminantes, após 10 anos de pesquisa. Pesquisas independentes concluíram que, se o Bovaer® for incluído na dieta de vacas leiteiras, tem potencial para reduzir as emissões de metano entre 27% e 40% por vaca, dependendo da dieta e da quantidade de inibidor de metano na ração10. Vários testes posteriores indicaram com sucesso que o Bovaer® pode ser incluído nas dietas comerciais de confinamento para reduzir as emissões de metano em até 80%, sem nenhum impacto negativo na saúde dos animais11. Recentemente, a Royal DSM obteve aprovação regulatória para ampliar o mercado do Bovaer® no Brasil e no Chile. A DSM espera obter aprovação de vários países europeus ainda este ano e dos EUA em 202212.
  2. Mootral: esta startup suíço-britânica desenvolveu um suplemento à base de extratos de alho e de cítricos que, misturado à ração comum do gado, tem potencial para reduzir as emissões de metano em mais de 30%13
  3. Esforços filantrópicos globais: em 11 de outubro de 2021, mais de 20 organizações filantrópicas privadas, entre elas a William and Flora Hewlett Foundation, a Bloomberg Philanthropies, a IKEA Foundation, a John D. and Catherine T. MacArthur Foundation, a David and Lucile Packard Foundation e a Children’s Investment Fund Foundation (CIFF)14, uniram forças para financiar mais de US$ 223 milhões e conter rapidamente as emissões de metano em todo o mundo. O financiamento deve apoiar o esforço liderado por EUA e UE para cortar as emissões globais de metano em 30% até 2030. Até hoje, é o maior investimento conjunto do setor privado para financiar, desenvolver e implementar soluções concretas contra as emissões de metano.

Há esperança. Agora é hora de coordenar e alinhar esforços para chegar a resultados com impacto

Apesar da aparente falta de foco da COP26 na redução das emissões de metano em sua missão de chegar a emissões líquidas zero em meados do século, passos significativos estão sendo dados. Ainda assim, os esforços continuam dispersos e contestados. Se esse impulso se mantiver, Glasgow pode ser uma oportunidade única para criar as condições do sucesso climático. Agora é fundamental levar essa coalizão pouco coordenada de stakeholders, que inclui governos, empresas do setor, cientistas e financiadores, a resultados com impacto, como os seguintes.

  • Soluções: o setor privado deu grandes passos ao trazer avanços em uma área onde as soluções ainda são escassas. É especialmente promissor que essas soluções estejam se mostrando capazes de reduzir as emissões em bem mais de 30%. Por isso, são fundamentais para chegar a emissões líquidas zero até 2050. A COP26 tem potencial para ser o momento catalisador para definir políticas públicas favoráveis e liberar o financiamento necessário ao desenvolvimento de muitas outras soluções pioneiras.
  • Compromissos e definição de políticas públicas: os modelos atuais indicam que as emissões globais de metano precisam cair de 35% a 37% até 2030 para atingirmos nossas metas de emissões de GEE. O Compromisso, liderado em conjunto pela UE e pelos EUA, busca reduzir as emissões de metano em apenas 30%, coletivamente.
  • Financiamento: até hoje, o financiamento climático esteve muito concentrado na redução das emissões de carbono. A COP26 tem a oportunidade de garantir investimentos em uma ampla gama de áreas prioritárias, incluindo a redução das emissões de metano. Os recentes esforços de financiamento filantrópico podem ser um exemplo promissor de quem “passa do discurso à prática”. Cabe agora ao fundo climático de 100 bilhões seguir o exemplo.
  1. https://ukcop26.org/cop26-goals/
  2. “Mudança climática: o que é a COP26 e por que ela acontece em Glasgow em 2021? CBBC Newsround”, BBC News (BBC), acesso em 12 de outubro de 2021, https://www.bbc.co.uk/newsround/51372486.
  3. Heather Stewart, “Cumprir as metas de financiamento da COP26 ‘vai ser difícil’, diz Boris Johnson”, The Guardian (Guardian News and Media, 20 de setembro de 2021), https://www.theguardian.com/global-development/2021/sep/20/meeting-cop26-finance-goals-going-to-be-tough-says-boris-johnson.
  4. Rajendra Pachauri e Leo Meyer, “IPCC: Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima”, 2015, https://www.ipcc.ch/pdf/assessment-report/ar5/syr/SYR_AR5_FINAL_full.pdf.
  5. Isabelle Gerretsen, “Relatório do IPCC motiva pedidos para enfrentar as emissões de metano na COP26”, Climate Home News (Climate Home, 12 de agosto de 2021), https://www.climatechangenews.com/2021/08/11/ipcc-report-prompts-calls-tackle-methane-emissions-cop26/.
  6. Hannah Ritchie e Max Roser, “Emissões por setor”, Our World in Data, 11 de maio de 2020, https://ourworldindata.org/emissions-by-sector#methane-ch4-emissions-by-sector.
  7. “Comunicado conjunto de EUA e UE à imprensa sobre o Compromisso Global de Metano”, Casa Branca (Governo dos Estados Unidos, 18 de setembro de 2021), https://www.whitehouse.gov/briefing-room/statements-releases/2021/09/18/joint-us-eu-press-release-on-the-global-methane-pledge/.
  8. “Comunicado conjunto de EUA e UE à imprensa sobre o Compromisso Global de Metano”, Casa Branca (Governo dos Estados Unidos, 18 de setembro de 2021), https://www.whitehouse.gov/briefing-room/statements-releases/2021/09/18/joint-us-eu-press-release-on-the-global-methane-pledge/.
  9. Johannes Friedrich, Mengpin Ge e Andrew Pickens, “Este gráfico interativo mostra as mudanças entre os 10 maiores emissores do mundo”, World Resources Institute, 10 de dezembro de 2020, https://www.wri.org/insights/interactive-chart-shows-changes-worlds-top-10-emitters.
  10. “Teste holandês com o novo aditivo alimentar da DSM comprova grande redução das emissões de gases de efeito estufa de vacas leiteiras: DSM Animal Nutrition & Health”, @anh, 28 de janeiro de 2021, https://www.dsm.com/anh/en_US/news-events/press-releases/2021/2021-01-28-major-reduction-of-greenhouse-gas-emissions-from-dairy-cows-proven-in-dutch-trial-of-dsm-novel-feed-additive.html.
  11. “Novo ingrediente alimentar permite redução significativa das emissões de metano em gado de corte: DSM Animal Nutrition & Health”, @anh, 16 de dezembro de 2020, https://www.dsm.com/anh/en_US/news-events/press-releases/2020/2020-12-16-novel-feed-ingredient-enables-significant-reduction-of-methane-emissions-in-beef-cattle.html.
  12. Jack Ellis, “DSM obtém aprovação para aditivo alimentar que reduz o metano no Brasil e no Chile”, AFN, 10 de setembro de 2021, https://agfundernews.com/dsm-secures-approval-for-methane-busting-cattle-feed-additive-in-brazil-chile.html.
  13. Nell Lewis, “Este suplemento pode reduzir o metano das vacas e gerar renda para os produtores”, CNN (Cable News Network, 18 de maio de 2021), https://edition.cnn.com/2021/05/18/business/cow-burps-methane-feed-supplement-mootral-spc-intl/index.html.
  14. “Organizações filantrópicas de destaque se unem e comprometem mais de US$ 223 milhões com a redução das emissões de metano”, Hewlett Foundation, 11 de outubro de 2021, https://hewlett.org/newsroom/leading-philanthropies-partner-and-commit-to-over-200m-to-reducing-methane-emissions/.

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