A COP26 vai impulsionar a mineração em águas profundas como motor da transição para a energia limpa?

A transição para a energia limpa exige enormes quantidades de cobre, lítio e cobalto. Perguntamos se a COP26 levaria a mineração ao fundo do mar e quem disputava essa resposta.

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A COP26 vai impulsionar a mineração em águas profundas como motor da transição para a energia limpa?

Em outubro, a TSC.ai publicará uma série semanal de insights sobre temas emergentes no cenário da COP26 e seus 4 objetivos de combate às mudanças climáticas: mitigação, adaptação, colaboração e financiamento. Com base nos insights gerados pelo Atium, a tecnologia de sensoriamento global da TSC, vamos destacar histórias que ainda são muitas vezes ignoradas, mas que oferecem orientações valiosas para alcançar os objetivos que esta conferência histórica pretende definir.

A falta de minerais críticos põe em risco a transição para a energia limpa

A principal missão da COP26 é criar uma estrutura que garanta emissões líquidas zero no mundo até meados do século, para limitar o aquecimento global a 1,5 grau Celsius, meta definida pelo Acordo de Paris de 20151. Na Conferência de Glasgow, esperamos que países e agentes do setor privado anunciem seus compromissos e planos para eliminar gradualmente o carvão, acelerar a migração para veículos elétricos e investir em energias renováveis. Há muitos pontos a acertar nessa mudança drástica dos sistemas de energia. Um fator importante a considerar é a disponibilidade e o fornecimento estável de minerais críticos como cobre, lítio, níquel e cobalto, materiais essenciais para operar turbinas eólicas, redes elétricas, veículos elétricos e muito mais. Estima-se que a oferta esperada desses minerais pela mineração convencional atenda apenas metade das necessidades projetadas de lítio e cobalto e 80% das necessidades de cobre até 2030. Ao mesmo tempo, o Banco Mundial estima um aumento de 500% na demanda por esses minerais até 20502.

Mineração em águas profundas: uma solução contestada para cobrir a lacuna

Diante de um “descompasso iminente entre as ambições climáticas e a disponibilidade dos minerais críticos essenciais para realizar essas ambições”, como afirma um relatório publicado recentemente3, a extração de minerais do leito marinho internacional surge como uma alternativa atraente. Vamos mergulhar no tema:

  • O que estamos extraindo nas profundezas do mar? Nódulos polimetálicos, sulfetos polimetálicos e crostas ricas em cobalto são coletados do leito marinho. Os nódulos, por exemplo, contêm altas concentrações de quatro metais essenciais para baterias e costumam ser chamados de “bateria de veículo elétrico em uma rocha”4.
  • Onde exatamente estamos minerando? A mineração em águas profundas ocorre a cerca de 3.000 a 6.500 metros abaixo da superfície do oceano em águas territoriais, e cresce o interesse em minerar em águas internacionais.
  • Quem tem permissão para minerar aqui? Nos últimos 20 anos, 31 licenças de exploração foram concedidas pela Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos (ISA)5, o órgão das Nações Unidas responsável pela mineração no leito marinho. As licenças permitiram que 18 governos nacionais se envolvessem, direta ou indiretamente, em empreendimentos de mineração em águas profundas em todo o mundo5.
  • Quais são os benefícios? Os defensores argumentam que a mineração em águas profundas pode ser uma solução para problemas inerentes à mineração convencional, como o deslocamento de comunidades locais, o desmatamento, as tensões político-comerciais e a participação de 4% a 7% nas emissões globais de gases de efeito estufa6.
  • Quais são as preocupações? As consequências da mineração em águas profundas ainda não são totalmente compreendidas, por se tratar de um campo relativamente novo. Mesmo assim, especialistas manifestaram preocupações, em particular com a remoção de partes do fundo do mar, que perturba a camada bentônica, e com os prováveis efeitos negativos sobre os habitats do leito marinho.

As operações estão suspensas enquanto se aguarda o sinal verde da ISA por meio de um conjunto de normas de mineração conhecido como Código de Mineração. Um atraso de quase um ano testou a paciência das empresas contratadas, que desde então intensificaram o lobby e a pressão pública sobre a ISA7. Isso provocou uma resposta enérgica de uma coalizão de 550 cientistas, que pediram uma moratória e destacaram a necessidade de pesquisas adequadas antes do início da mineração. O apelo foi ouvido. Uma moção “para proteger os ecossistemas e a biodiversidade do fundo do oceano por meio de uma moratória à mineração do leito marinho” foi aprovada por diversos governos, ONGs e grupos da sociedade civil no recente Congresso Mundial de Biodiversidade (UICN), em Marselha.

O futuro da mineração em águas profundas pode ser decidido na COP26

Apesar de sua relevância como possível catalisador da transição para a energia limpa, a mineração em águas profundas tem sido até agora apenas um debate marginal no âmbito da COP26. Ainda assim, identificamos que 4 governos que hoje operam contratos da ISA por meio de empresas (estatais) adotaram posições divergentes sobre o futuro da mineração em águas profundas desde a Conferência da UICN em Marselha. O que isso pode nos dizer sobre esses governos, que devem anunciar roteiros ambiciosos em Glasgow?

gráfico de dados
  • Alemanha (a favor da moratória / contra a mineração em águas profundas): com um ambicioso plano Energiewende 2030 em vigor, que prevê metade do fornecimento de eletricidade vindo de fontes renováveis e a eliminação do carvão até 2038, a Alemanha pode ser considerada uma das líderes europeias em descarbonização. No entanto, atender à sua demanda por materiais críticos depende fortemente de importações8. Pelos vínculos com o BGR, seria de esperar que a Alemanha votasse contra a moratória ou ao menos se abstivesse. Não foi o que aconteceu. Pressionada por grandes atores industriais como a BMW9, a Alemanha apoiou a moratória. É um sinal claro de que, para a Alemanha, neste momento, as preocupações ambientais pesam mais do que uma oportunidade industrial. O país pode se posicionar como a força que afasta o debate de uma possível mineração em águas profundas e defender a eficiência de recursos e os ciclos fechados de materiais promovidos por atores como a BMW.
  • Bélgica (contra a moratória / a favor da mineração em águas profundas): a Bélgica enfrenta uma batalha difícil para resolver seus problemas de segurança energética. A energia nuclear cobre mais da metade da demanda de eletricidade, e o governo planeja eliminar a energia nuclear entre 2022 e 2025. Quase metade das importações de gás da Bélgica vem da província de Groningen, no norte dos Países Baixos, que vai encerrar a produção em meados de 202210. Com participação em operações de mineração em águas profundas por meio da contratada Global Sea Mineral Resources NV. e do DEME Group, a Bélgica tem motivos significativos para promover a mineração em águas profundas. Se o tema entrar na agenda da COP, podemos esperar que a Bélgica seja uma forte defensora.
  • Reino Unido (absteve-se): com uma meta de emissões líquidas zero para 2050, uma grande participação de renováveis em sua matriz elétrica até 2030 e um Plano de Dez Pontos para uma Revolução Industrial Verde11, a COP26 é a oportunidade decisiva para o governo de Boris Johnson consolidar o país como líder global em descarbonização. Diante dessa ambição elevada e dos vínculos estreitos com contratadas como a Lockheed Martin e a UK Seabed Resources Ltd., não surpreende que o Reino Unido deixe a porta aberta para a mineração em águas profundas.
  • França (absteve-se): a França planeja reduzir a participação da energia nuclear em sua matriz elétrica de 70% para 50% até 2035 e fechar suas últimas usinas a carvão até 2022. Com a forte necessidade de investimentos em energia renovável daqui em diante, a França, assim como o Reino Unido, deixa a porta aberta. Dada sua participação no Ifremer, líder em ciência e exploração oceânica, a França está bem posicionada para liderar as pesquisas sobre a mineração em águas profundas e seus impactos e, com isso, possivelmente garantir um lugar na exploração em um futuro próximo.

Para mais informações sobre este artigo e insights sobre a transição para a energia limpa e a COP26, e para saber como sua organização pode usar a tecnologia Atium da TSC, entre em contato com a TSC.ai pelo e-mail info@tsc.ai

  1. https://ukcop26.org/cop26-goals/
  2. https://pubdocs.worldbank.org/en/961711588875536384/Minerals-for-Climate-Action-The-Mineral-Intensity-of-the-Clean-Energy-Transition.pdf
  3. https://www.iea.org/reports/the-role-of-critical-minerals-in-clean-energy-transitions
  4. https://www.fleetpoint.org/electric-vehicles-2/battery/polymetallic-nodules/new-study-reveals-the-true-costs-of-sourcing-battery-metals/
  5. https://isa.org.jm/exploration-contracts ↩2
  6. https://www.mckinsey.com/business-functions/sustainability/our-insights/climate-risk-and-decarbonization-what-every-mining-ceo-needs-to-know
  7. https://www.reuters.com/business/environment/exclusive-deep-sea-mining-rules-be-fast-tracked-push-nauru-source-2021-06-25/
  8. https://www.bmwi.de/Redaktion/EN/Dossier/raw-materials-and-resources.html
  9. https://www.greencarcongress.com/2021/04/20210401-deepsea.html
  10. https://www.iea.org/countries/belgium
  11. https://www.iea.org/countries/united-kingdom

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