
Um dos temas mais aguardados da COP27 será o enfrentamento das perdas e danos causados pela mudança climática. Há 2 elementos-chave a considerar:
- Compensação: como, quanto e por quem devem ser compensados os países que sofreram grandes perdas econômicas por causa de catástrofes climáticas?
- Apoio técnico: quais abordagens e soluções devem ser implementadas para evitar, minimizar e enfrentar as perdas e danos decorrentes da mudança climática nesses países? Quem deve fazer isso, e como?
A inauguração da Rede de Santiago sobre Perdas e Danos (SNLD, na sigla em inglês) será crucial para cumprir este segundo ponto. A COP26 avançou bem no financiamento da Rede, e agora espera-se que a COP27 a coloque em ação. Mas como, exatamente, se operacionaliza uma rede multistakeholder como a SNLD?
Resumimos aqui em 3 passos:

Passo 1. Dar clareza à missão
Mobilizar um grupo diverso de stakeholders em torno de uma causa é uma coisa. Garantir que todos os stakeholders envolvidos estejam alinhados e suficientemente informados para cumprir a missão conjunta é outra. A clareza começa por abordar um tema complexo como “perdas e danos” a partir de uma visão “sistêmica”, que analisa e conecta de forma holística os principais fatores e interações que estão na base tanto das causas quanto das soluções.
TIPOS DE PERDAS E DANOS

Fonte: UNFCC
Além da complexidade dos temas, a variedade de stakeholders, suas diferentes trajetórias e missões individuais podem levar a falhas de comunicação ou, pior, a desalinhamento. Por isso, é fundamental dar clareza à missão desde o início, para conduzir uma rede multistakeholder como a SNLD na direção certa e implementar as soluções mais adequadas nos lugares certos e no momento certo.
Há 3 boas práticas que ajudam a dar clareza à missão de uma rede multistakeholder:
- Alinhamento:
- Garanta que todos os stakeholders envolvidos concordem com as prioridades e as nuances e conheçam as implicações sociais, ambientais e de governança dos temas e das soluções em questão.
- Desenvolvimento e compartilhamento de conhecimento:
- Crie a infraestrutura que permita aos stakeholders compartilhar conhecimento, monitorar o andamento da implementação e acompanhar marcos individuais e conjuntos.
- Análise de horizonte:
- Acompanhe de perto o que acontece no ecossistema externo mais amplo, incluindo tendências emergentes, pontos críticos geográficos e movimentações de stakeholders.
Um exemplo a seguir: Em setembro do ano passado, as Nações Unidas realizaram a primeira Cúpula dos Sistemas Alimentares. O encontro reuniu várias agências da ONU, fundações filantrópicas e organizações do setor privado, em colaboração, com a missão de catalisar mudanças na forma como os alimentos são produzidos e consumidos no mundo. Para orientar a conversa e o foco nas direções certas, a liderança da Cúpula estruturou seus objetivos em torno de cinco “Linhas de Ação”. Cada uma delas foi desenhada para identificar os desafios e as mudanças decisivas para construir sistemas alimentares sustentáveis.
Passo 2. Entender o potencial da sua rede
Hoje, a SNLD reúne mais de 19 organizações globais e regionais de 5 setores (financiamento e desenvolvimento, ciência e meio acadêmico, think tanks, risco e seguros, e ajuda humanitária), incluindo 4 agências da ONU. Isso é impressionante e promissor. Ainda assim, precisamos olhar além de uma simples lista de logotipos, assim como lemos não só a capa do livro, mas também o romance. É crucial mergulhar na rede e analisá-la em detalhe. Só então podemos entender a dinâmica de uma rede e aproveitar todo o seu potencial.
Há 3 perguntas que precisamos responder para entender o potencial de uma rede multistakeholder:
- Quem está envolvido?
- Identifique quem é quem, em quais temas de “perdas e danos” cada um atua e quais objetivos persegue.
- Qual é a dinâmica?
- Entenda as diferentes habilidades, conhecimentos e soluções que cada stakeholder pode oferecer, e para quem e onde eles devem ser mobilizados.
- Quais são as sinergias e as lacunas?
- Avalie se as habilidades, os conhecimentos e as soluções atendem suficientemente às necessidades locais. Una forças onde houver sinergias e amplie a rede onde houver lacunas.
Um exemplo a seguir: O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) reúne especialistas da sociedade civil, da indústria, do meio acadêmico e do governo na Parceria Global sobre Lixo Marinho (GPML, na sigla em inglês). O objetivo é combater a poluição por plástico e o lixo marinho em todo o mundo. A GPML lançou uma plataforma digital que permite a esses especialistas de diferentes setores identificar com eficiência oportunidades operacionais (quem é quem, em que trabalham e quais competências trazem) e oportunidades estratégicas (em quais regiões ou temas é preciso ampliar a rede).
Passo 3. Transformar uma rede interconectada em uma coalizão de impacto
A missão da Rede de Santiago sobre Perdas e Danos é clara. Esperamos que a SNLD ajude a aliviar os graves impactos da mudança climática sobre comunidades e economias de países em desenvolvimento. Mas ainda há muito mais a fazer se quisermos enfrentar “perdas e danos” como um sistema e no longo prazo. Pense, por exemplo, em influenciar políticas públicas, estimular financiamentos e investimentos e desenvolver tecnologias e inovações. Não vamos defender que a SNLD assuma essas tarefas. Mas as coalizões multistakeholder também estão bem preparadas para gerar impacto nessas áreas, pelos seguintes motivos:
- Se estiver alinhada em missão e visão, uma rede assim será capaz de produzir uma “voz coordenada” e aproveitar o princípio da “força do coletivo”
- Uma rede isolada sempre faz parte de um ecossistema muito maior, que pode ser mobilizado para impulsionar mudanças. Por exemplo, a SNLD tem apenas 19 membros. Ainda assim, seu ecossistema diretamente conectado é formado por mais de 1.300 organizações de grande impacto no governo, no desenvolvimento, na sociedade civil e na indústria.
